quarta-feira, 10 de março de 2010


















Como poderia explicar-te,
que sou todos os aviões

e o aeroporto a que chegam,

para depois partir de mim,
levando-me?








domingo, 7 de março de 2010



















Eu tenho em mim a tua saudade,
o teu jeito de sentir-me ao teu lado,
ao descer pelas ruas da cidade,
ao subir pela encosta do Chiado.


Não te tenho e quero ter contigo,
e tu tens de mim o que não tens,
não estás nas palavras que não digo,
e não vens nas palavras nas que vens.


Eu tenho em mim a tua saudade,
tens tu em ti meus braços sem os ver,
e só vive nosso amor nesta verdade,
no entanto sobes e desces a cidade,
e eu escrevo estas palavras sem te ter.







sexta-feira, 5 de março de 2010


















Se lateja toda a palavra na tua voz
Que interessa que morra a que é minha?
No teu latejo está tudo o que eu são
e na tua voz não morrerá a minha vida.

Hei-de viver para sempre no teu sentido
quando morra a minha voz, a que te fala,
como agora, que tu dizes o que eu digo
e lateja em toda tua voz minha palavra.








quarta-feira, 3 de março de 2010



















Os poetas que o são,
só são necessários,
o imprescindível é a poesia.

Não pode depender de mim nem de ti a verdade
e não depende.

Se sou ou não sou um poeta,
é uma questão sem sentido.









terça-feira, 2 de março de 2010



















Amar a poesia não é possível,
como não o é deixa-la da amar.

Está-se dentro dela sem entrar
e uma vez ali, nunca se sai.








segunda-feira, 1 de março de 2010



















Uma suposta sobreposição:



A palavra sobre a palavra,
superpondo-se ao valor do dito,
questionando seu vigencia presente,
duvidando de sua estrutura de limites,
negando contornos e fronteiras,
procurando em suas entranhas sua pele.

Abrí-la para fugir dela,
a rasgar para lhe dar vida,
dizer não existe para a criar.

Fluir na nada do silêncio do vento,
descompor-se no ar,
rozar sem dedos o invisível,
sentir que pensas como respiras.

Encontrar-se a um mesmo no médio
da inexistência das palavras,
de seu total evaporación como linguagem
e entender nesse lugar desaparecido
o esquecido sentido de todas as coisas,
esse que as palavras sobre as que vivemos
limitam a lógicos significados.

A palavra sobre a palavra,
que pode ser ou não ¿Quem o sabe?
mais do mesmo.


























Minha palavra tem corpo,
o que escrevo é tangible,
digno de ser amado,
insuficiente.

Se escrevo a palavra,
esta trascenderá,
inclusive para além do possível.

Mas não me engano,
minha alma
(Como princípio que dá forma
e organiza o dinamismo vegetativo,
sensitivo e intelectual da vida)
é vazio,
não cabe num corpo
nem em nenhuma palavra escrita.

Em nada do escrito deixo-me tudo.

Secalhar por isso o escrevo,
para deixar-me todo o que posso,
secalhar por isso o amor,
para deixar-me nele o alma,
para não o escrever.


























Para sentír as coisas que não se escrevem,
tenho de esquecer as palavras ditas
e abandonar este mundo e o mundo.

Ir para além de todo o desconhecido,
da cultura viva
e da morta.

Para sentír as coisas que não se escrevem,
tem de calar minha voz aprendida
e tenho de desaprender os caminhos.

Ir a um lugar que não existe em ninguém,
a uma invisibilidade manifesta,
ao fundo da superfície.

Para sentír as coisas que não se escrevem,
há que ser árvore, vento, água
e se deixar cegar pela luz da cegueira.

Ir ao insondable sem esperanças
de encontrar ali o que procuras,
não chegar nunca a nenhum lugar.

Para sentír as coisas que não se escrevem,
saio deste poema pelo final,
que todos os poemas acabam-se
e eu quero deixar de escrever,
para sentir as coisas que não se escrevem,
as que nunca se terminam.



























A minha herança para a filha que numca tivem:


Deixo-te em herança, minha filha,
este eco que entra agora em teus olhos,
todas as palavras que escrevi,
as que nunca foram minha fortuna.

Não tenho mais nada que isto,
nada maior me deu a vida,
nada menos importante.

Deixo-te com elas todo o que não tenho,
minha filha,
porque só nelas estás tu,
vivendo em mim como um milagre.









sábado, 27 de fevereiro de 2010


















Morrem as palavras ao saíres da boca,
morrem ao dize-las,

morrem também ao escreve-las,

estas palavras já tão mortas,

as que estás a ler agora, agora morrem,

as que leste até agora já morreram

e as que leras a partires daqui nasceram mortas.

Quando é que vivem as palavras?

Quando tão vivas?

Só no ventre dum,

somente caladas,

ausentes,

sem voz nem papel nem olhos.

As palavras só vivem quando não existem

e o demais é pura literatura e mentira,

um pássaro morto.









quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010




















Uma historia verdadeira que inspirou a este fugido que sou eu, com a minha verdadeira historia também, como Afranio do Amaral.
Naqueles tempos, os homens fugiam para o monte, em solidão, nestes tempos alguns fogem para a Net (blogues, redes sociais, mensagens...) onde os amigos existem duma forma transparente e translúcida, quase in-existindo, o qual permite não ser descoberto e não ficar sozinho, aparentemente.
Quase é a mesma coisa, caminhar ou navegar perdido, sem ser identificado, tentar sobreviver ao tempo e nele, sem perder a básica necessidade humana de comunicar-se com os seus iguais.
Antigamente, os homens imaginavam ter uns poucos amigos que os ajudavam.
Hoje presumem ter milhares deles, embora a maioria não os ajudem, seja porque não saibam, seja porque não possam, seja porque não querem.
Eu sou Afranio do Amaral, e morro e renasço para seguir fugindo de mim.
Não dou um passo no meu caminho nem uma remada no meu navegar induzido por um numero inexistente de amizades, não procuro milhares de amigos, mais tampouco sou diferente aos demais, aqui estou, escrevendo isto e fugindo.










terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

















Esta manhã decidi suicidar-me,


e como sou um bocado preguiçoso,


propus-me faze-lo da maneira mais simples,


deixando-me viver ate morrer.









domingo, 21 de fevereiro de 2010









Se parto de crer que eu não sou o que penso, da sensação que o pensamento se interpõe entre eu e eu mesmo, fazendo-me impossível chegar em mim pelo razoado pensado, eis de concluir então que eu não sou eu quando penso e que o que penso não me deixa ser eu, aquele que fui.

Sim isto é assim, e eis de sentir sem razoado para ser eu, que ninguém me peça explicações para aquilo que faço, para as coisas que somente a lógica do raciocínio pode entender, porque eu não poderei dá-las sim não sou eu no pensado.

E se alguém me pede explicações para o sentido, se alguém quer saber porque sinto, também não as darei, porque o que pergunte pelo sentido, o fará desde a parte dele mesmo que não é ele, porque o fará pensando qual pode ser a explicação e o pensamento se interporá entre ele e o que ele é, aquele que foi, como a crença de partida.

Eu não posso explicar o que penso, porque não sou eu quando penso e não posso explicar o que sinto, porque ninguém é ele quando pergunta.

E não sinto nada disto, porque o tenho pensado.

















quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010



















Eu antes de ser já era,
eu já fui quem não sou.



Floresci muito antes que a primavera das flores,

muito antes que a literatura dos povos escrevi,

precedendo aos poemas, à poesia,
a essa indecifrável e inexistente intempérie da alma.



A luz que trago em meus olhos não nasceu neles,

era uma sombra que latejava em tudo o que sabiam que iam ver,
em tudo aquilo que sabia que ia ser visto,
em tudo o que meus olhos ignoravam.



As palavras choradas pelas estátuas dos cemitérios,

suas lágrimas de pedra,

foram ditas por mim antes de nascer a morte.



Nos rios, as árvores e os pássaros,
na água, a terra e o ar,

nos elementos da vida vivo desde muito antes que a vida.



Tudo aquilo que parece intocável,

in substantivo, intangível, etéreo,

tudo o que se acha que não é nem pôde haver sido,

já o era eu antes de ser.



E com tudo,

apesar disso ou talvez por isso,

ainda não chego a ser sendo,

ainda minha voz não se formou,
ainda busco entre as trevas da memória,

da [des-memoria],
do tempo, de seus ritmos e arritmias.



Sim,

procuro,
busco a maneira de ser como era antes,

ser como são as coisas,

como é este agora

e viver em mim para ser o antes do ser de sempre.



Peço ajuda para profanar os templos,

para entrar nos segredos e violá-los,

para divulgar a heresia,

para, definitivamente,

encontrar o caminho, a verdade e a vida.









terça-feira, 16 de fevereiro de 2010



















Interessava-me mais a morte que a vida,
mais a minha morte do que a tua vida,
como se a minha vida fosse a minha morte.


Mais estava errado,
porque só posso morrer da tua vida e viver da nossa.



















sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



Afranio diz:





Eu escrevi centenas de poemas,
coisa estúpida (ou não).

Mas por muitos que escreva,
por muito estúpido que eu seja (ou não),
são muitos mais os que nunca escreverei,
os que nunca escrevi,
(o que não me faz menos estúpido, ou não).

Tê-los “perdido” não quer dizer que não sejam meus,
eu sei que pertencem-me,
porque o digo e os digo.

O que desejo é que aqueles que "roubarem-mos”,
esses poetas bêbedos de estupidez (ou não),
os sintam tão seus como eu.

Somente assim farão sentido.

Neste caso sei que é assim,
porque o tenho notado em mim e o poeta diz-me.





E depois Afranio deija falar ao poema.













quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010























Sou Afranio do Amaral.

Na sua primeira função, a escrita é para mim uma catarse, um exercício de respiração lenta e profunda, uma obra de teatro sem actor, sem cenário, sem público e sem final, podendo ser, nalgum momento, o seu contrario, ou seja, um espectáculo no que se mostra a mesma vida a fluir pelas veias dum actor, o que escreve, embora ela sempre viva fora da escrita e do corpo de quem a procura escrever. Foi Pier Luigi Pirandello o que diz: " A vida, ou se vive ou se escreve ", frase que havía num caderno que alguém me ofereceu para escrever nele, curiosa perversidade.

Eu escrevo perseguindo a vida ao mesmo tempo que a vida se escapa de mim, eu escrevo procurando a vida, a única coisa que sei que nunca vou perder, escrevo nessa fuga. Eu escreverei sempre, ate o dia em que, totalmente vivo, morra.

Foram os meus escritos, as minhas palavras, num tempo anterior, uma brincadeira. Escrever tornara-se numa espécie de terapia de sedução, um jogo no qual o valor intrínseco do escrito não passava do valor dum bom poema (quando o poema era bom), algo duma pobreza de rés-do-chão, quase de réptil.
No entanto, algumas das minhas palavras levavam dentro de si a essência de mim próprio, algumas foram escritas para existirem em mim como eu mesmo.

Depois o mundo mudou, e eu com ele. Abandonei aquelas praias abandonadas e morri, renasci e voltei-me para a escrita como aprendizagem do meu próprio caminho, para morrer e voltar a nascer. Mais de mil poemas foram o preço a pagar, embora alguns ficassem na minha gaveta para não me esquecer de esquecer, os outros formam parte já daquela morte.

Foi nesta fase que veio a mim Afranio do Amaral, influenciado por um guardador de rebanhos e por um fugido, que adoptou esta personalidade dum cientista brasileiro morto (por acaso especialista em répteis) para caminhar pelos montes fronteiriços entre a Galiza e Portugal e assim sobreviver.

Afranio in-existe, mais é verdadeiro como a natureza. Ele procura sentir as coisas, sejam pedras, árvores, rios ou sentimentos com um sentido real.

Afranio sente que chove sobre ele como se ele fosse a terra, mas só passa por ela, ou talvez nem isso. Afranio, pobre homem sem destino, com princípio e sem fim.

Afranio é eu e também não, porque nem eu próprio sei ainda quem sou, de facto, não sei muito bem qual dos dois escreve estas palavras.



® Afranio do Amaral ?








quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010





















Olha como desce a água do río,
que não é dele,
continuamente.

Olha como passa abaixo da ponte,
como sempre passou,
como se a água fosse o río e não ao invés,
que é o río a água.

E olha para mim,
que sou o río,
que sou a água,
que sou a ponte
e que não sou nada.


















segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010




















Afranio olhou espantado para as árvores da quinta.

Tinha o jardim laranjeiras, magnolios, camélias…
mais acima de todos eles,
dois troncos cheios de braços procuravam altura,
uma altura desde a que poder ver além do que se via.

As árvores buscavam sua terra pelo ar,
porque aquelas árvores não eram dali,
foram exilados de seu mundo,
dum mundo de poetas e sangue,
transportados através do mar
para ser uma lembrança de eles mesmos.

Ao redor daquelas figuras,
o chão estava cheio de pinhões,
seu fruto deitado na terra,
aguardando ser alimento,
eles que deram nome a um povo.

Afranio lembrouse da raça
e voltou a um tempo perdido no tempo,
florestas selvagens nas quais a água era livre,
vulcões de neves eternas
advertindo ao vento que ainda vivem
com a sua fumarola blanca e densa,
lagos de nomes que cantavam…

Então misturou-se tudo nele,
o seu sentimento de origem,
a origem inventada dele mesmo,
a realidade na qual via as árvores
e as rugas de suas mãos,
onde tanto se sentia Afranio um Caupolicán
e a casca duma araucaria.

Ele,
um homem preso de sua idade
e livre para amar a quem,
ao seu lado,
dava-lhe nome e alimento,
como uma árvore plantado na sua terra.








quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



















Os campos despertam escarchados
porque a noite foi fria.

A bruma pega-se à terra,
como um sentimento.

Alguns animais calam e observam
as novas formas que a luz lhe dá
às coisas conhecidas e velhas.

Os sons do mundo que nasce
soam silenciosos, profundos e suaves.

Afranio amanhece
e sente que suas palavras e ele,
são iguais a tudo o amanhecido.